Estômago

João Miguel
Ainda que a prostituta glutona por quem Nonato se apaixona, Íria (Fabiula Nascimento), pareça saída de A Comilança (1973), João Miguel não é um parlapatão típico italiano. O tipo acanhado do ator de Cinema, Aspirina e Urubus - tipo esse que deu a João Miguel o prêmio de melhor ator por Estômago no Festival do Rio - é muito mais complexo. Com seus olhos pequenos e curiosos, o ator vai de ente benévolo de fábula a maníaco do cutelo em um segundo. Deixar-se fitar pelo estranho João Miguel é um encanto e também um perigo.
Segue valendo mais do que nunca a máxima do mais célebre pensador de gastronomia da história, Anthelme Brillat-Savarin, autor do livro A Fisiologia do Gosto, de 1825: "Diga-me o que comes e eu te direi quem és". O bandido iletrado que chama "carpaccio" de "carrapato" nunca deixará, por preconceito culinário, de ser um bandido iletrado, mas Nonato, que aprende a apreciar a boa mesa, muda como pessoa, particularmente na parte do filme-de-cadeia. E ele aprende a filtrar esse conhecimento e o transformá-lo em moeda de troca.
Talvez não seja o caso de dizer que Nonato é o clássico herói sem caráter, um correlato culinário do Selton Mello de O Cheiro do Ralo. Há em suas ações um senso de ética bastante particular, como a ética da meretriz que não beija. Aético é o chefe que vende romeu-e-julieta a oito reais... Nonato está mais para anti-herói incompreendido mesmo, como no filmes italianos setentistas que se travestiam de comédia para falar de inconformismo, e daí se explica a catarse que Estômago provoca no público.
https://omelete.uol.com.br/cinema/estomago/